terça-feira, setembro 05, 2006

Um poema que adoro...


Porque o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

- Sorrindo interiormente,
Coas pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. -

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fraturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha

2 comentários:

Anónimo disse...

É mesmo um blog de gaja rosinha, ai

Anónimo disse...

Para quem se move pelo dito popular: "Antes a dor que a incerteza", esse poema não vem nada a calhar! E sendo eu tambem um amante do dito dito, não desgosto da visão idealista de Camilo Pessanha. Talvez estejamos ambos errados e o melhor seja mesmo, enfim, não ouvir nem ver, passarem sobre nós e nada nos doer, mas como isso não me parece ser possivel, e embora que sempre que alguem nos atropele doa como o caraças...que venha a dor, que com o tempo tudo passa, e se não nos matar, deixar-nos-á mais fortes, com uma maior bagagem de experiência para não sofrer tanto no futuro! Assim eu espero...